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BoaProva Blog

Blog do Prof.Perdigão. Desde 2007, notícias do BoaProva e comentários sobre educação e outros temas de relevância.

Viramos fazenda de escravos?

Há muito tempo estou para tratar do tema, mas faltava a oportunidade. O MEC e seu maravilhoso ministro me deram a motivação necessária.

 

Na segunda-feira, saiu publicada no Diário Oficial da União uma Portaria Normativa do MEC limitando o número de novas vagas de graduação em Medicina no Brasil.

 

Você vai dizer: "Oh! Que bom! MEC preocupado com a qualidade dos médicos!". Será?

 

Calma! Vamos ler direito!

 

Basicamente, o que a portaria diz é: "Dane-se se os cursos são bons. Não podemos deixar as leis de oferta e procura agirem, porque isso aumentaria o número de médicos e diminuiria ainda mais o salário já reduzidíssimo desses proletários. Para parecer que a coisa é técnica, nós vamos elaborar uma equaçãozinha que, no fim das contas, vai diminuir brutalmente o número de médicos no mercado. Assim, com muita demanda e pouca oferta, os poucos abnegados que se dedicaram à Medicina vão poder ganhar um salário 'um pouquinho' maior."

 

Se você ainda não entendeu, vou tentar desenhar usando o meu caso. Tenho 32 anos. Daqui a uns 30 anos, vou começar a demandar fortemente serviços médicos. Só que, como o tempo em que nasci foi, também, o tempo em que muita gente nasceu – aliás, a época da história em que mais gente nasceu no Brasil, início da década de 1980 –, vai ter um monte de outras pessoas precisando de médicos nesse fim de vida. É, fazer o quê? A gente envelhece.

 

O problema, no entanto, não está no inexorável envelhecimento. O problema está na defesa de interesses classistas promovida pelo MEC e sua porcaria, digo, portaria. Não vai ter médico para todo mundo. Se você quiser um, vai ter de pagar caro.

 

Sim, eu sei que o serviço de um médico já é absurdamente caro hoje, de preço incompatível com o nível de renda da população. O que vai acontecer é que isso vai PIORAR!

 

Sim, é possível piorar e vai acontecer!

 

Eu, se quiser atendimento de um médico no Brasil, vou ter de arrebentar com as economias de uma vida inteira e dar para esses caras, porque NÃO VAI TER MÉDICOS SUFICIENTES!

 

O que me tranquiliza é já saber a solução. É triste, mas eu estou começando a me acostumar com a ideia.

 

Quando eu me aposentar, vou deixar o Brasil. Vou para onde possa viver bem com minhas economias.

 

Essa história de ir ao exterior comprar o que é caro no Brasil não é nova. Não fui eu quem inventou. A elite ensina a cada vez que fala que foi fazer compras em Miami. Mas, graças às oportunidades que tive de viajar ao exterior, consegui entender a jogada da elite e, confesso, usufruir.

 

Basicamente, TUDO é mais barato no exterior. Exceções só confirmam a regra. O que dá para trazer, eu trago. Vou com mala vazia e trago roupas (lindas camisas por 50 pesos uruguaios, menos de R$6; peças de grife em ponta de estoque na Califórnia por 10 ou 15 dólares), pequenos equipamentos eletrônicos (celulares, câmeras, GPS, barbeador elétrico, conversores de energia... pela metade do preço no Paraguai), calçados (de babuches marroquinas a sapatos sociais colombianos), livros e tantos outros produtos.

 

Não é brincadeira: a passagem e uns dias de estadia se pagam com a economia.

 

A tragédia de tudo isso é que eu estou pagando impostos estrangeiros, sustentando postos de trabalho estrangeiros, tirando dinheiro do Brasil e colocando no estrangeiro.

 

Agora vem a parte mais absurda de tudo isso: você, cidadão comum, que não vai ao exterior e está pagando valores absurdos pelos produtos comprados aqui, está bancando o lucro da elite que vive indo ao exterior, está bancando o desperdício de dinheiro público e outros absurdos.

 

Dei uma aula em Cristalândia (TO) há cerca de um ano e o tema veio à baila. A comparação de um dos presentes à aula foi brilhante: o povo vive no Brasil como se estivesse em uma fazenda de escravos, em que o patrão não deixa sair, paga uma ninharia e força o "trabalhador" a comprar seus produtos na própria fazenda, a preços estratosféricos, fazendo com que ele fique "em dívida" com o patrão, algo que o patrão usa como justificativa para manter o trabalhador como cativo.

 

É isso o que a elite política e econômica faz com o povo e parte da classe média: explora ferozmente seu trabalho, paga pouco e cobra muito caro pelos produtos que lhe vende. A analogia, portanto, não poderia ser melhor.

 

A proteção a mais uma parte da elite – a classe médica – só é mais um capítulo da triste realidade brasileira, que não tem perspectiva de mudança positiva. Até porque as duas grandes forças políticas brasileiras, PT e PSDB, mostraram que se curvam, ambas, à manutenção dos mecanismos de "escravização".

 

Dilma já vinha fugindo das reformas de que um país mais justo exige. A portaria do MEC mostra que a direção pretendida é exatamente a contrária àquela que interessa ao país: interessa piorar o que já está ruim, aumentando o fosso social.

 

Quem pode, vai embora.

 

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