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BoaProva Blog

Blog do Prof.Perdigão. Desde 2007, notícias do BoaProva e comentários sobre educação e outros temas de relevância.

Tem gente que sabe o que quer. Já outros...

Há poucos dias falei do fato de a USP seguir sendo elitista.

 

Ontem o jornal O Estado de S.Paulo publicou matéria citando documento interno da universidade sugerindo mudanças na Fuvest.

 

Teoricamente, seria para aumentar a proporção de alunos da escola pública.

 

Eu acho que nunca vi uma proposta tão mal fundamentada.

 

Quem disse aos elaboradores desse documento que as questões objetivas são piores para os alunos de escolas públicas e melhores para alunos de cursinhos?

 

De onde tiraram a ideia de que aumentar o número de disciplinas na segunda fase vai mudar o perfil do ingressante?

 

É tão mal fundamentada a proposta que parece, ... bem, falarei no fim.

 

Primeiro ponto a ser discutido: ignorar o resultado da primeira fase para cômputo da nota final é impressionantemente absurdo (casos 1 e 2).

 

Segundo ponto a ser discutido: contar apenas a nota de questões dissertativas dificulta o acesso de quem teve pior qualidade educacional (casos 3 e 4).

 

Mas não vou discutir. Vou imaginar os casos citados acima.

 

Caso 1: O sujeito não estuda o ano inteiro. Tira exatamente a nota de corte. Decide, em dezembro, contratar professores inteligentes para lhe ensinar o que é preciso (e a Fuvest é extremamente previsível...). Tira nota boa e passa. É a valorização da malandragem na Fuvest. É a valorização do dinheiro na Fuvest. Ou se pode esperar que o aluno pobre contrate esse tipo de professor?

 

Caso 2: O sujeito é aluno de escola pública. Não é a pior escola, mas é mais que óbvio que não é a melhor. Os professores são esforçados. Só que não entendem nada de vestibular. Seus alunos típicos não costumam ter tais pretensões. Os professores pegam apostilas da década de 80 para tentar ajudá-lo. Pura aplicação de fórmulas. Pura decoreba. O sujeito não tem acesso às provas recentes. Quando tem, não consegue resolver tais questões, entender a resolução. Os professores não conseguem ajudar. Não estão preparados. Um deles, inclusive, substituto que é, tirou zero na prova da Secretaria de Educação. Mas o aluno vai bem na aplicação de fórmulas e na memorização de fatos básicos. Como ainda tem um pouco disso na Fuvest, ele passa para a segunda fase, até que com uma nota boa. Mas nada vale, porque sua pontuação zerou. Na segunda fase, aquela tragédia anunciada. E o bravo lutador fica de fora.

 

Caso 3: Quanto mais inteligente o vestibular fica, mais elitista ele se torna. Quanto mais muda, mais se exige que o estudante esteja informado sobre as mudanças. Mas o sujeito, depois de trabalhar por vários anos, percebe que só vai mudar de vida se aceder à universidade. Já tem família e não pode pagar faculdade. E acha que tem direito de entrar na USP. E não tem tempo de fazer cursinho popular, e não tem dinheiro para cursar os bons. Estuda sozinho no fim de semana, no tempinho livre. Com apostilas que comprou no sebo. Não recebeu nenhuma orientação sobre como trabalhar o tempo, como abordar as questões, não fez simulados. Passa para a segunda fase. Só ilusão. A segunda fase falou de coisas que ele nem sabia. Não tinha essa história de interdisciplinaridade nas suas apostilas. Mais um lutador para fora da USP.

 

Caso 4: Sujeito é filho de um técnico em Química. Tem grande orgulho do pai. Mas o pai não pode lhe oferecer educação paga. Aliás, o pai é outro sujeito extremamente capacitado e inteligente, ao qual também foi negado o direito de ser alguém. Poderia ter sido Nobel em Química, o primeiro grande cientista brasileiro, mas não foi. Ama Química, tem o pai para lhe ajudar. Na escola, sofrível, um alento: a professora de Matemática, aposentada de uma universidade particular de ponta, resolve ser "semivoluntária" (pelo salário que recebe, a palavra é essa) na escola pública básica. Ou seja, o sujeito só tem acesso a boas aulas de Química e Matemática. Escreve razoavelmente, mas mais porque seu pai lhe traz jornais velhos e livros usados do que por ter aprendido na escola. Consegue passar para a segunda fase. Mas a Fuvest 2010 mudou. Sua nota de 1ª fase é solenemente ignorada. Na segunda fase, não consegue se expressar para responder às questões de Biologia, História, Geografia, que agora são dissertativas. Já tinha sido menos que regular na redação. Só vai bem no terceiro dia. É insuficiente para a Poli. Passa na Unesp, vestibular tradicional, mas não pode ir morar no interior. Precisa começar a trabalhar. Corre para a Fatec e vai ser técnico em Química. Desta vez é um gênio fora da USP.

 

Ninguém se deu ao trabalho de ver que os alunos de escolas públicas convencionais (pode tirar as de elite, como técnicas, experimentais e militares) se saem melhor em questões de X que nas abertas. Parece que a proposta vem da própria elite, que quer continuar no poder e eliminar os "benefícios" dos bônus (que, aliás, são elitistas, como já falei aqui). Aliás, esse vazamento justamente por um jornal que já foi tido como apoiador do regime militar só corrobora a hipótese de que quem elaborou a ideia é alguém que não gostaria de ver a USP "invadida" por "cidadãos de segunda classe".

 

Dezenas de dissertações e teses são produzidas na USP estudando a Fuvest em minúcias, e os dirigentes parecem não se dar ao trabalho de lê-las. É dinheiro jogado fora, para dizer o mínimo.

 

E a reitora parece preferir continuar escutando Julio Iglesias, sentada em seu gabinete, alheia ao que ocorre lá embaixo, na vida real, e até mesmo ao que ocorre no seu próprio prédio, no CoG, que com essa proposta estapafúrdia busca anular seus "esforços" no sentido de conseguir "aumentar a proporção de egressos da escola pública" (os alunos de escolas públicas técnicas e militares foram os únicos beneficiados até agora, como se vê).

 

Vale dizer que eu não estou defendendo caridade. Ao contrário. Defendo que os superdotados pobres tenham direito de entrar na USP. São muitos. Tantos que as vagas da USP seriam insuficientes para todos. Hoje, apenas os superdotados sortudos podem ter esperanças. A USP tem direito de continuar elitista, mas em nível acadêmico, jamais em nível social.

 

P.S.: Todas as histórias (como eu já disse aqui, neste blog são todas assim) são fictícias. Qualquer semelhança, por maior que seja e incluindo a sigla USP, é fruto da sua imaginação. Até essa da reitora que escuta Julio Iglesias no gabinete. Somente os prognósticos são reais. Infelizmente.

 

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