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BoaProva Blog

Blog do Prof.Perdigão. Desde 2007, notícias do BoaProva e comentários sobre educação e outros temas de relevância.

"Cientistas" também pegam só o que convém

Saiu na Nature uma reportagem isenta sobre o tema da pílula milagrosa: http://www.nature.com/news/brazilian-courts-tussle-over-unproven-cancer-treatment-1.18864

 

O trecho que quero destacar: "Drugs that seem promising in lab and animal studies have a notoriously high failure rate in human trials. Despite this, some chemists [...] have manufactured the compound for years and distributed it to people with cancer."

 

Qual o interesse dos envolvidos? Quem sabe como a ciência realmente é produzida – basta dizer que é por pessoas comuns, e que ciência envolve dinheiro – não terá dificuldade de perceber. 

 

Pegando da ciência só o que convém

Em 1966, a revista Time analisava a redução do papel da religião numa era de secularização, urbanização e avanço da ciência. Supunha-se que, cada vez mais, as pessoas acreditariam menos em algo irracionalmente, e passariam a exigir o método científico para tudo, visando a uma melhor compreensão do real.

 

George Johnson, no jornal The New York Times, vê a realidade bem diferente hoje, quase 50 anos depois. O texto que segue é reprodução parcial da tradução da Folha de S.Paulo.

 

Em sucessivas frentes, o consenso científico arduamente conquistado vai sendo moldado para acomodar crenças pessoais, religiosas ou não, a respeito de assuntos como segurança das vacinas, cultivos transgênicos, uso do flúor ou ondas de rádio emitidas por celulares, sem falar na existência ou não da mudança climática global.

 

Como os criacionistas com seu "design inteligente", os seguidores dessas causas chegam armados da sua própria ciência pessoal, montada com o auxílio de buscas na internet que inevitavelmente revelam as contorções feitas por grupos interessados.

 

Numa tentativa de diluir essa forma de sabedoria popular, o Google recentemente alterou seu algoritmo para que uma busca sobre "vacinação" ou "fluoretação", por exemplo, coloque informações com respaldo médico no topo da lista de resultados.

 

No entanto, aparentemente, muita gente não se convence com essa oferta de trabalhos científicos confiáveis. Um estudo publicado no mês passado na revista "Proceedings", da Academia Nacional de Ciências dos EUA, sugeriu que, para demover os participantes do movimento antivacina, o mais eficaz seria apelar para suas emoções, mostrando relatos e fotos de crianças com sarampo, caxumba ou rubéola -um lembrete de que as pessoas ainda confiam mais nos seus sentimentos subjetivos do que nos conhecimentos científicos.

 

Até mesmo condições já descritas como patologias estão sendo redefinidas. Enquanto alguns pais se apegam a pesquisas desacreditadas que culpam as vacinas pelo desenvolvimento do autismo, outros encaram esse transtorno meramente como uma outra forma de ser, chegando a propor um novo movimento dos direitos civis que promova a "neurodiversidade", tema de um livro lançado em agosto por Steve Silberman.

 

Vendo de longe, o mundo parece quase à beira de admitir que não existem verdades, apenas ideologias concorrentes -narrativas lutando contra narrativas. Nessa guerra epistemológica, os mais poderosos são acusados de impor a sua versão da realidade -o "paradigma dominante"- sobre os demais, cabendo ao lado mais fraco reagir com suas próprias formulações. Tudo vira versão.

 

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