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BoaProva Blog

Blog do Prof.Perdigão. Desde 2007, notícias do BoaProva e comentários sobre educação e outros temas de relevância.

Editorial da Folha: inocência ou incompetência?

É exatamente esta a pergunta que se coloca diante da bobajada irrefletida do editorial da Folha de S.Paulo de hoje, intitulado "Formação docente".

 

O raciocínio é o seguinte: os cursos de licenciatura no país vão ter carga horária maior. Logo, os professores estarão mais bem preparados.

 

É nisso que dá não ensinarem Lógica na escola.

 

Vamos traduzir a premissa: os débeis cursos de licenciatura do Brasil, frequentados, em média, pelos alunos mais fracos, terão uma ampliação da mediocridade. Agora, não mais 2800 horas de mediocridade docente, discente e estrutural, mas 3200 horas.

 

A conclusão da Folha: com isso, "a maioria dos novos docentes encontrará seus alunos com um preparo mais adequado para a realidade das escolas".

 

Em vez de a Folha fazer uma cobertura crítica do fato, buscar a controvérsia (e há, e muita), denunciar o corporativismo dos formadores de professores e o comodismo das soluções enganosamente fáceis, preferiu o caminho cômodo e acrítico da claque.

 

Se um órgão de imprensa formador de opinião como a Folha não consegue denunciar a farsa da educação nacional, que perspectiva há de melhora?

 

Redação nota 1000?

Já cansei de dizer que redação deveria ser repensada no Enem. Pesquisas já mostraram a influência de fatores como o humor de quem julga sobre os julgamentos. Quem corrige provas sabe do que eu digo: aluno X, muito bom... vou relevar o erro dele aqui, porque eu sei que ele sabe. Aluno Y, sempre ausente, conversando, pouco participativo... mesmo erro, mas este não merece o benefício.

 

Objetividade em prova dissertativa? Qual nada! Já tive alunos no Tocantins que mal sabiam escrever o nome e conseguiram tirar quase 900 em redação no Enem. Mais que eu, que devo estar escrevendo um português arcaico. É nisso que dá não ter smartphone, WhatsApp, Facebook e outras tranqueiras de utilidade restrita, onde o "português contemporâneo" vem sendo forjado. É sério.

 

Aqui estão alunos que, sim, têm bons textos, não sei se valeriam nota 1000, mas, dada a flexibilidade necessária, sim, nota 1000: http://g1.globo.com/educacao/enem/2015/noticia/2015/05/leia-redacoes-do-enem-que-tiraram-nota-maxima-no-exame-de-2014.html

 

Exercício de comparação, aberto aos especialistas. Abaixo, a minha redação nota 840 (para ver maior no computador, clique com botão direito e veja a figura em outra janela).

 

0-TempBLOG.jpg

 

 

E aqui está a correção realizada, comentada por mim em itálico:

 

COMPETÊNCIA 1 - Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa - nota 160 (80%)

 

O participante demonstra bom domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa e de escolha de registro, com poucos desvios gramaticais e de convenções da escrita, ou seja, apresenta um texto com boa estrutura sintática, com poucos desvios de pontuação, de grafia e de emprego do registro exigido.

 

Poucos desvios de grafia e do emprego do registro exigido? Eu desafio a encontrar. Pode haver controvérsias sobre a vírgula, mas só. Faça-me o favor. No mínimo, 90%!

 

COMPETÊNCIA 2 - Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das varias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa - nota 160 (80%)

 

O participante desenvolve o tema por meio de argumentação consistente e apresenta bom domínio do texto dissertativo-argumentativo, com proposição, argumentação e conclusão. Embora ainda possa apresentar alguns problemas no desenvolvimento das ideias, o tema, em seu texto, é bem desenvolvido, com indícios de autoria e certa distância do senso comum demonstrando bom domínio do tipo textual exigido.

 

Indícios de autoria? Não pode ser sério. A gente cansa de ver redações 1000 com linhas e linhas de cópia do texto motivador, e o corretor me coloca na categoria "indício" de autoria? Além disso, desculpe-me, mas a distância do meu texto do senso comum é medida com que régua? Será que defender "pena de morte ao publicitário infantil" foge o suficiente ao senso comum para eu tirar nota máxima nessa competência? Reconheço fraquezas na argumentação, e a conclusão está suficientemente desconectada do resto. Mas daí a me dar 80% e dar 100% para textos com os mesmos problemas, vai uma distância boa. 

 

COMPETÊNCIA 3 - Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista - nota 160 (80%)

 

Em defesa de um ponto de vista, o texto apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema, de forma organizada, com indícios de autoria, ou seja, os argumentos, embora ainda possam ser previsíveis, estão organizados e relacionados de forma consistente ao ponto de vista defendido e ao tema proposto, e há indícios de autoria.

 

Nota 100% teria o quê? Argumentos imprevisíveis? Quem dá a métrica? O avaliador? Quer dizer que, se eu surpreender (ou agradar) o avaliador com um argumento redigido um pouco diferentemente do que é habitual, mas alinhado com o ponto de vista do mesmo, a nota é 100%? Isso é objetividade em avaliação? Sério?

 

COMPETÊNCIA 4 - Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação - nota 180 (90%)

 

O participante articula bem as ideias, os argumentos, as partes do texto e apresenta repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações.

 

Uai, se é assim, por que não nota máxima? Ou alguém acha que o avaliador médio está apto a identificar gênios da argumentação, os únicos a ganhar o 100%?

 

COMPETÊNCIA 5 - Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos - nota 180 (90%)

 

O participante elabora excelente proposta de intervenção, detalhada, relacionada ao tema e articulada à discussão desenvolvida no texto. Trata-se de redação cuja proposta de intervenção seja muito bem elaborada, relacionada ao tema, decorrente da discussão desenvolvida no texto, abrangente e bem detalhada.

 

O mesmo questionamento da competência 4. Qual a diferença desse brilhantismo que teria sido identificado no meu texto para o da nota máxima? Quem está apto a fazer essa diferenciação?

 

A nota final foi 840, o que me coloca entre os 2,5% melhores. Digamos que esteja objetivamente correto. Nesse caso, o meu afastamento para as redações 1000 merece ser de 160 pontos, ou 19% da nota? Esse afastamento não se verifica em nenhuma outra prova do Enem, só na redação. A diferença de pontuação entre o melhor candidato de uma prova e o último entre os 2,5% melhores não é nem de 5%. Entendeu, matemático? A redação acaba pesando, no mínimo, 4 vezes mais que cada uma das outras provas.

 

Junte isso ao fato de ser uma prova de correção subjetiva, e a tragédia está montada. 

 

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