Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BoaProva Blog

Blog do Prof.Perdigão. Desde 2007, notícias do BoaProva e comentários sobre educação e outros temas de relevância.

O potencial das crianças...

Um texto do psicanalista Contardo Calligaris na Folha de S.Paulo do último dia 4 estrutura de forma plena pensamento que eu já vinha tendo.

 

Esse atentado em Boston, no qual "morreram três pessoas, inclusive um menino de 8 anos" (ouvi essa duas vezes na Globo) só veio reforçar a ideia e me fazer escrever.

 

O que o menino tinha de especial? Nada. Era um vir a ser. Inclusive, vir a ser terrorista. Então, destaque para quê?

 

Outra motivação é a dificuldade que meus alunos têm em aceitar que fracassaram. Em parte, é natural do ser humano acusar o externo pelo fracasso em lugar de internalizarem o processo. Mas o exagero na quantidade e na intensidade das manifestações me assusta. É uma sociedade inteira formando monstrinhos que não sabem lidar com a frustração.

 

Vamos a Calligaris:

 

De onde vem a ideia de que nossas crianças seriam dotadas de disposições milagrosas e que o maior risco seria o de elas desperdiçarem o que já é seu patrimônio?

 

O potencial das crianças modernas tem duas propriedades: ele é genérico (ou seja, não é fundado em nenhuma observação específica, é uma espécie de a priori: criança tem grande potencial, em tudo) e ele deve dar seus frutos espontaneamente, sem esforço algum da parte da criança.

 

Nossos rebentos são dotadíssimos para esporte, desenho, criação, música, ciência, estudo, línguas estrangeiras etc. E, se os resultados escolares forem péssimos, as crianças nunca são preguiçosas, elas só estão desperdiçando seu "incrível potencial". Há uma cumplicidade de todos ao redor dessa ideia.

 

Os pais querem que as crianças sejam tudo o que eles não conseguiram ser na vida. Pior, eles querem que as crianças cumpram essa missão sem esforços, por milagre (o milagre do "potencial").

 

Os professores acham no potencial uma maneira maravilhosa de assinalar que fulano é medíocre sem atrapalhar o sonho dos pais da criança, os quais podem seguir pensando que seu filho leva notas infernais, mas vale a pena insistir (e pagar a escola mais cara) porque ele tem um potencial extraordinário.

 

Quanto aos filhos, acreditar em seu próprio "potencial" é uma maneira barata para se sentir especial, apesar de resultados pífios. Problema: na hora, inevitável, do fracasso, quem aposta no seu potencial conhece a sensação especialmente dolorosa de ter traído a si mesmo (ou seja, ao seu "potencial").

 

Pelo acesso livre de pagamentos e controles

Em postagem de agosto de 2011, indiquei a posição do líder do SciELO, portal brasileiro gratuito de revistas científicas, de que as revistas brasileiras não têm qualidade porque não têm receita.

 

A posição era absurda demais. Tanto que, aparentemente, ele tem mudado de posição, ao menos publicamente.

 

A tendência de liberar e democratizar o acesso ao conhecimento ganha força no poder público, que é quem interessa. Obviamente, pessoas que pretendem usar periódicos para fazer dinheiro se opõem.

 

Houve o boicote à Elsevier, a maior editora de periódicos (pagos) do mundo, liderado por um professor da Universidade de Cambridge.

 

Houve, agora, a diretiva lançada por Barack Obama, no sentido de que pesquisas financiadas pelo contribuinte estadunidense precisam ter seus resultados tão públicos quanto o dinheiro que as financiou.

 

Ora, nada mais justo, correto e, especialmente, positivo para a própria autorregulação da ciência. É a liberdade que faz a ciência.

 

O estudioso bielorrusso Evgeny Morozov, já citado neste blog em 25 de janeiro de 2012, assina artigo, de argumentação firme, com a posição de que "livros didáticos vigiados não nos darão um novo Einstein".

 

Obviamente, isto se estende à ciência, aos periódicos, porque o controle de acesso é o mesmo que se pode dar aos livros didáticos eletrônicos: o acesso é facilitado aos artigos que interesses escusos preferem divulgar, enquanto artigos com conclusões que contrariam interesses de capitais antiéticos e governos totalitários são escondidos por meio de ferramentas de busca adulteradas, registro de acesso e preços altíssimos.

 

Precisamos garantir acesso livre de pagamentos e controles aos resultados de pesquisas científicas.

 

É posição que todo pesquisador ético deveria defender.

 

Pelo ócio criativo

A tranquilidade e a flexibilidade no horário de trabalho não têm preço para trabalhos intelectuais.

 

Uso ao máximo minhas possibilidades, graças à expressa isenção legal de controle de ponto para professores universitários federais.

 

Não que a minha defesa venha de hoje. Mas venho ao tema novamente por conta de dois artigos publicados recentemente:

 

Um acerca da sabatina Folha com Domenico de Masi, sociólogo italiano ícone da defesa do ócio criativo.

 

E outro que só confirma a minha maior justificativa pela posição contrária à da "escola de tempo integral": percepção empírica de que, crianças, quanto mais ócio, mais criatividade.

 

Claro que é preciso saber usar, conduzir adequadamente o ócio. Mas que o potencial é enorme para as pessoas certas, não há dúvidas.

 

Ética x religião

O que me motivou a escrever sobre o tema foi uma combinação de fatos recentes. Fatos que me incomodam profundamente.

 

A gota d'água foi ler há pouco a coluna de ontem do sempre brilhante Hélio Schwartsman na Folha de S.Paulo, em que ele esclarece que a interpretação do Pastor Feliciano à fábula bíblica da "maldição de Cam", de que ela seria prova de que os negros são "amaldiçoados", é uma interpretação de origem escravagista, ou seja, crescida nos Estados Unidos do século 19 para justificar a escravidão. Nada no texto original ou no desenvolvimento da fábula faz qualquer tipo de referência a negros.

 

Hoje, estava no carro, na hora do almoço, quando sintonizei Edir Macedo. Nunca me chamou a atenção, mas como o neopentecostalismo não tem saído da mídia nas últimas semanas, deixei o dial ali. Macedo falava de dízimo, da obrigação de dar para a igreja, e de um certo evento em que uns representantes da igreja, talvez bispos, levariam fios de cabelo de fiéis ao mar da Galileia.

 

O tal mar foi escolhido porque ali, diz a Bíblia, teria ocorrido a "segunda pesca milagrosa", em que teriam sido pescados 153 peixes. Macedo afirmou que o número 153 significa, em hebraico, "filhos". Se alguém conseguir confirmar essa relação, por favor, atualize a Wikipédia, porque existem várias teorias ali, muito mais complexas que as de Edir Macedo, para explicar o número 153, nenhuma confirmada, e nenhuma tratando de hebraico.

 

O que me parece? Que os sujeitos falam qualquer coisa que lhes vêm à mente, que eles sabem que agradarão aos incautos fiéis. Quem é que vai questionar o que diz o exegeta Feliciano, o sábio Macedo? Ainda mais acessando a profaníssima (ou demoníaca) internet e dela extraindo as informações que derrubam o que eles dizem?

 

Continuemos. Segundo Macedo, as duas coisas, dízimo e cabelo, estavam vinculadas, porque o fio de cabelo e seu DNA no mar bíblico representariam uma "cobrança" do fiel a Jesus. Macedo explicou que, uma vez que o fiel dá dinheiro à Universal, ele ganha o direito de "cobrar Jesus". Como isso foi ao meio-dia, e agora já são 8 da noite, eu não sei ao certo que tipo de cobrança era. Acho que Macedo não explicitou. Mas não é o que interessa. Interessa é que a relação que o fiel estabelece com a força superior, segundo Macedo, é de troca envolvendo dinheiro.

 

É uma visão repelida pelas correntes do pentecostalismo tradicional. Mais que isso, torna a relação entre o terreno e o espiritual tremendamente suja. Porque dinheiro não merece ser régua para medir o valor de ninguém, nem deve conspurcar quaisquer tipos de relações éticas, morais e, obviamente, religiosas.

 

A própria ética sai maculada. O líder da Igreja Betesda, Ricardo Gondim, deu entrevista recente à revista Carta Capital, acertando exatamente nesse ponto. Além disso, ele expõe exatamente de que fonte fundamentalista bebe Feliciano ao atacar os negros. Diz Gondim: "O movimento brasileiro é filho direto do fundamentalismo norte-americano. Os Estados Unidos exportam seu american way of life de várias maneiras, e a igreja evangélica é uma das principais. As lideranças daqui leem basicamente os autores norte-americanos e neles buscam toda a sua espiritualidade, teologia e normatização comportamental. A igreja americana é pragmática, gerencial, o que é muito próprio daquela cultura. Funciona como uma agência prestadora de serviços religiosos, de cura, libertação, prosperidade financeira. Em um país como o Brasil, onde quase todos nascem católicos, a igreja evangélica precisa ser extremamente ágil, pragmática e oferecer resultados para se impor. É uma lógica individualista e antiética. Um ensino muito comum nas igrejas é a de que Deus abre portas de emprego para os fiéis. Eu ensino minha comunidade a se desvincular dessa linguagem. Nós nos revoltamos quando ouvimos que algum político abriu uma porta para o apadrinhado. Por que seria diferente com Deus?"

 

Eu fico me perguntando se é possível o diálogo com esses fiéis que foram convencidos por Felicianos, Macedos etc. Se é possível resgatá-los. Coisas pequenas, como questionar a validade do que diz o pastor – e não aceitar tudo sem reflexão. Ou se a ética divina tal como os pastores desenham tem conexão com a realidade dos fatos. Que ética? Ora, a que privilegiaria alguns em detrimento de outros, que reservaria milagres a uns poucos e o limbo à massa, que levaria à ação de Deus em banalidades como um jogo de futebol, sem um lado "com mais Jesus" que outro...

 

O brilhante filósofo esloveno Slavoj Zizek, ateu, disse em entrevista ao jornal português Público: "A maior parte das pessoas acredita que deve existir uma entidade superior que garante que a nossa vida tem sentido, ou seja, que deve existir algo superior. Acho que devíamos abandonar isto. Seria muito melhor para a moralidade, porque se esquecermos a transcendência então somos confrontados com a nossa responsabilidade. Aceitar a nossa liberdade e não deitar a culpa para ninguém é uma posição mais forte."

 

Sim, Zizek traz uma visão ateísta. Mas há uma releitura religiosa muito profunda do mesmo princípio, dada pelo pastor evangélico Ricardo Gondim, na mesma entrevista à Carta Capital: "O Deus em que creio não controla, mas ama. É incompatível a existência de um Deus controlador com a liberdade humana. Se Deus é bom e onipotente, e coisas ruins acontecem, então há algo errado com esse pressuposto. Minha resposta é que Deus não está no controle. A favela, o córrego poluído, a tragédia, a guerra, não têm nada a ver com Deus. Concordo muito com Simone Weil, uma judia convertida ao catolicismo durante a Segunda Guerra Mundial, quando diz que o mundo só é possível pela ausência de Deus. Vivemos como se Deus não existisse, porque só assim nos tornamos cidadãos responsáveis, nos humanizamos, lutamos pela vida, pelo bem. A visão de Deus como um pai todo-poderoso, que vai me proteger, poupar, socorrer e abrir portas é infantilizadora da vida."

 

Paulo Freire dedicou a vida às suas "pedagogias", como a do oprimido, por exemplo. Difícil dizer como chamar o cidadão à luta por seus direitos quando ele acha que a situação é desígnio divino. Freire, palestrando na Ceilândia, periferia de Brasília, já no fim da vida, disse: "Eu perguntava: e o que é ser camponês? E ela respondeu: é sofrer, é esperar e não receber nunca, é ser maltratado, é ver a mulher adoecer e não poder socorrê-la, é ver a mulher ficar velha aos 30 anos, é ver o filho sonhar e jamais poder realizar; camponês é isto: é não ter direitos, por exemplo. E eu dizia, e por que isto? Ele disse: "porque assim Deus quer". E a resposta, ora era uma acusação a Deus (porque no fundo havia uma distorção da compreen­são de Deus, que terminava por acusá-lo, quer dizer: Deus, no fundo, era um sujeito malvado); mas..., ora a explicação dependia da força e da vontade de Deus, ora a explicação se centrava... Ora a explicação se centrava no destino, no fardo, na sina, quer dizer, nós somos assim porque o destino quer que nós sejamos assim. E o que eu queria era, num processo político-pedagógico - que toda a educação é - o que eu queria era desafiar a ingenuidade de nossos companheiros operários urba­nos, favelados, afinal de contas, a nossa enorme maioria; o que eu queria era desafiar a imensa maioria que, coincidentemente também, era analfabeta, no sentido de que, como sujeitos curiosos se tornassem capazes, ape­nas com a ajuda dos jovens educadores, se tornassem capazes de desentra­nhar as verdades ocultas, as verdades escondidas..., quer dizer, no fundo a minha compreensão da prática educativa era a compreensão de uma práti­ca a serviço das classes populares para desocultar verdades escondidas que, favoreciam, enquanto escondidas, favoreciam às classes dominantes."

 

"Desafiar a ingenuidade de nossos companheiros", caro Paulo Freire, é o que eu gostaria de ter o dom de fazer.

 

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

subscrever feeds