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BoaProva Blog

Blog do Prof.Perdigão. Desde 2007, notícias do BoaProva e comentários sobre educação e outros temas de relevância.

Convite

CONVITE

DEFESA DE TESE DE DOUTORADO

Daniel Perdigão Nass

“Licenciaturas a distância em Física e Química no Tocantins: trajetórias, possibilidades e limites”

Comissão Examinadora:
Prof. Dr. Luís Carlos de Menezes (orientador, IF-USP)
Prof. Dr. Fernando José de Almeida (PUC-SP)
Prof. Dr. José André Peres Angotti (UFSC)
Profa. Dra. Marta Maria Castanho Almeida Pernambuco (UFRN)
Prof. Dr. Sérgio Henrique Bezerra de Sousa Leal (UFABC)

14/11/2012, quarta-feira, Auditório Novo 2 – Ala Central, IF-USP – às 13h00

 

Como não usar o celular

Há pouco mais de um mês, postei texto ironizando os amigos e "amigos" que insistem em me cobrar por não considerar as comunicações que eles teriam feito a mim (e a mais 859 "amigos") na rede social.

 

Pois acabei por ter à mão um texto adaptado de Umberto Eco, retirado de uma prova de concurso para a Anatel. Segue abaixo. Ele diz muito melhor o que tentei explicar aqui e, embora Eco tenha se referido ao celular, um paralelo com as redes sociais é fácil de fazer.

 

Como não usar o telefone celular

É fácil ironizar os possuidores de telefones celulares. Mas é necessário descobrir a qual das cinco categorias eles pertencem. Primeiro, vêm as pessoas fisicamente incapacitadas, ainda que sua deficiência não seja visível, obrigadas a um contato constante com o médico ou com o pronto-socorro. Depois, vêm aqueles que, devido a graves deveres profissionais, são obrigados a correr em qualquer emergência (capitães do corpo de bombeiros, médicos, transplantadores de órgãos). Em terceiro lugar, vêm os adúlteros. Só agora eles têm a possibilidade de receber ligações de seu parceiro secreto sem que membros da família, secretárias ou colegas mal-intencionados possam interceptar o telefonema.

 

Todas as três categorias enumeradas até agora merecem o nosso respeito: no caso das duas primeiras, não nos importamos de ser perturbados em restaurantes ou durante uma cerimônia fúnebre, e os adúlteros tendem a ser muito discretos.

 

Seguem-se duas outras categorias que, ao contrário, representam um risco. A primeira é composta de pessoas incapazes de ir a qualquer lugar se não tiverem a possibilidade de conversar fiado acerca de frivolidades com amigos e parentes de que acabaram de se separar. Elas nos incomodam, mas precisamos compreender sua terrível aridez interior, agradecer por não estarmos em sua pele e, finalmente, perdoar.

 

A última categoria é composta de pessoas preocupadas em mostrar em público o quanto são solicitadas, especialmente para complexas consultas a respeito dos negócios: as conversas que somos obrigados a escutar em aeroportos ou restaurantes tratam de transações monetárias, atrasos na entrega de perfis metálicos e outras coisas que, no entendimento de quem fala, dão a impressão de que se trata de um verdadeiro Rockfeller.

 

O que eles não sabem é que Rockfeller não precisa de telefone celular, porque conta com um plantel de secretários tão vasto e eficiente que, no máximo, se seu avô estiver morrendo, por exemplo, alguém chega e lhe sussurra alguma coisa no ouvido. O homem poderoso é justamente aquele que não é obrigado a atender todas as ligações, muito pelo contrário: nunca está para ninguém, como se diz.

 

Portanto, todo aquele que ostenta o celular como símbolo de poder, na verdade, está declarando de público sua condição irreparável de subordinado, obrigado que é a pôr-se em posição de sentido, mesmo quando está empenhado em um abraço, a qualquer momento em que o chefe o chamar.



ECO, Umberto. O segundo diário mínimo. Sergio Flaksman (Trad.). Rio de Janeiro: Record, 1993, p. 194-6 (com adaptações).

 

Lei demais, educação de menos? Não na EaD.

Há pouco, li entrevista de Marcos Formiga para a excelente revista de divulgação científica ComCiência (aqui).

 

Para quem não sabe, Marcos Formiga é um dos professores que mais se envolvem com EaD no Brasil, estando fortemente ligado, desde a origem, à Abed, a Associação Brasileira de Educação a Distância.

 

Disse Formiga: "Quando se quer criar um programa educacional no Brasil, não se pensa no conteúdo do programa – pensa-se primeiro no decreto-lei que irá criá-lo. É a primeira coisa com que se preocupa a burocracia estatal e este é um caminho completamente equivocado."

 

Isso me remeteu diretamente a uma experiência recente.

 

Nos últimos meses, observei muito de longe uma reforma de um projeto pedagógico de um curso (PPC) universitário de formação de professores de ciências.

 

A principal preocupação de um dos professores envolvidos, um pedagogo, foi com a futura avaliação do curso. Ele repassou a todos os envolvidos a planilha com os indicadores que os professores avaliadores do MEC iriam observar em uma futura visita.

 

Analogicamente, um PPC é como uma casa. Você pode construir um do zero ou reformar, se você já tem um.

 

Neste caso, uma reforma, o dito pedagogo estava mais preocupado com a avaliação (ou seja, com o fiscal do habite-se) do que em saber da estrutura (se a casa pararia em pé).

 

Defendo em minha tese e já defendi em monografia de especialização: a regulamentação e a consequente avaliação da EaD, em parte, se justifica para garantir elementos pedagógicos mínimos, que seriam, por certo, desprezados por instituições mais interessadas no lucro do que na qualidade da educação. Ou seja, concordo com a posição do professor Marcos Formiga, mas defendo um mínimo de regulamentação.

 

Só para compreender meu ponto de vista: uma instituição onde já atuou o profissional que citei é um exemplo de despreocupação total com qualidade na educação. A grande preocupação da universidade referida, cujos cursos foram definitivamente fechados pelo MEC em 2010, era com a fiscalização.

 

Entende-se, por aí, a possível razão pela qual o pedagogo citado buscou orientar a reforma do PPC pelo IAC, o Instrumento de Avaliação de Cursos de Graduação, e não pelas DCN, as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso referido, ou, como seria ainda melhor, pelos conhecimentos continuamente trazidos pelos pesquisadores em ensino de ciências nos periódicos e eventos da área.

 

Ele fez isso porque, provavelmente, era assim que funcionavam as coisas nos cursos em que ele atuou, agora extintos pelo MEC: não importava se a casa parava em pé, desde que ela ganhasse a sonhada autorização do governo para existir (e gerar lucro fácil).

 

E a casa não parava em pé. Por isso foi devidamente derrubada.

 

Será que essa regulamentação e fiscalização do MEC gera uma distorção que não existiria se a EaD fosse, no Brasil, um tipo de educação aberta, como defende Marcos Formiga?

 

A história da EaD de nível superior no Brasil indica justamente o contrário: que foi exatamente a falta de regulamentação mínima no início da década passada o que possibilitou a criação e a expansão dessas instituições caça-níqueis.

 

Portanto, o que precisamos fazer é aprimorar a regulamentação e a fiscalização, para evitar que cursos EaD sejam criados ou reformados tomando-se, agora, a avaliação como principal baliza.

 

P.S.: O problema de usar os indicadores de qualidade como baliza é que você perde o foco no resultado final. Deixa de interessar saber se os alunos estão aprendendo, se o curso está fazendo diferença localmente, para se preocupar com indicadores quantitativos. O fato de um curso ter elementos de qualidade não significa que ele tem qualidade. Por exemplo, não importa se o coordenador do curso dedica 30 horas por semana à atividade se ele não está apto a exercer a função; não importa se o curso tem núcleo docente estruturante qualificado se suas decisões são impostas e não discutidas. Mesmo com problemas gravíssimos, a nota na avaliação seria máxima. De certa forma, isso se assemelha ao caso em que o aluno sabe como vai ser a prova que o professor vai aplicar e dirige seus estudos não para dominar o conteúdo, mas para garantir nota, colocando o aprendizado em segundo plano.

 

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