Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BoaProva Blog

Blog do Prof.Perdigão. Desde 2007, notícias do BoaProva e comentários sobre educação e outros temas de relevância.

Artigo de Boaventura + Entenda a greve da UFT

O caos da ordem

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS

 


Em Londres, estamos perante a denúncia violenta de modelo que tem recursos para resgatar bancos, mas não os tem para uma juventude sem esperança

 

Os motins na Inglaterra são um perturbador sinal dos tempos. Está a ser gerado nas sociedades um combustível altamente inflamável que flui nos subterrâneos da vida coletiva sem que se dê conta.


Esse combustível é constituído pela mistura de quatro componentes: a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo, a mercantilização da vida individual e coletiva, a prática do racismo em nome da tolerância, o sequestro da democracia por elites privilegiadas e a consequente transformação da política em administração do roubo "legal" dos cidadãos. Cada um dos componentes tem uma contradição interna.


Quando elas se sobrepõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão de proporções inimagináveis. Com o neoliberalismo, o aumento da desigualdade social deixou de ser um problema para passar a ser a solução.


A ostentação dos ricos transformou-se em prova do êxito de um modelo social que só deixa na miséria a maioria dos cidadãos porque estes supostamente não se esforçam o suficiente para terem êxito.


Isso só foi possível com a conversão do individualismo em valor absoluto, o qual, contraditoriamente, só pode ser vivido como utopia da igualdade, da possibilidade de todos dispensarem por igual a solidariedade social, quer como agentes dela, quer como seus beneficiários.


Para o indivíduo assim construído, a desigualdade só é um problema quando lhe é adversa; quando isso sucede, nunca é reconhecida como merecida. Por outro lado, na sociedade de consumo, os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para as criar incessantemente, e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se têm como quando não se têm.


Entre acreditar que o dinheiro medeia tudo e acreditar que tudo pode ser feito para obtê-lo vai um passo muito curto. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada lhes aconteça. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, acabam nas prisões.


Os distúrbios na Inglaterra começaram com uma dimensão racial. São afloramentos da sociabilidade colonial que continua a dominar as nossas sociedades, muito tempo depois de terminar o colonialismo político. Um jovem negro das nossas cidades vive cotidianamente uma suspeição social que existe independentemente do que ele ou ela seja ou faça.


Tal suspeição é tanto mais virulenta quando ocorre numa sociedade distraída pelas políticas oficiais da luta contra a discriminação e pela fachada do multiculturalismo.


O que há de comum entre os distúrbios da Inglaterra e a destruição do bem-estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade comandadas por mercados financeiros? São sinais dos limites extremos da ordem democrática.


Os jovens amotinados são criminosos, mas não estamos perante uma "criminalidade pura e simples", como afirmou o primeiro-ministro David Cameron.


Estamos perante uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar bancos e não os tem para resgatar a juventude de uma vida sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e mais irrelevante, dados o aumento do desemprego e o completo abandono em comunidades que as políticas públicas antissociais transformaram em campos de treino da raiva, da anomia e da revolta.


Entre o poder neoliberal instalado e os amotinados urbanos há uma simetria assustadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão a semear o caos, a violência e o medo, e os semeadores dirão amanhã, genuinamente ofendidos, que o que semearam nada tem a ver com o caos, a violência e o medo instalados nas ruas das nossas cidades.

 


BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, sociólogo português, é diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de "Para uma Revolução Democrática da Justiça" (Cortez, 2007).

 


 

Situação parecida a gente vê no Brasil, com a diferença de que os pobres têm seu voto comprado baratinho com auxílios do governo, perpetuando a cáfila. Enquanto isso, a classe média, que não tem bolsa-família nem vive de juros e de corrupção, vai sendo esfolada sem reclamar, porque não tem união, porque acha que fazer levante é coisa de bandido. Sim, é exatamente esta a visão que toda a imprensinha classe-média mostrou ao noticiar os levantes ingleses, no que foi respaldada pela maioria da classe média: basta perguntar ao vizinho.

 

É por isso que estou em greve, sim. Porque vamos para o segundo ano sem sequer correção monetária no salário. Enquanto isso, quem tem títulos do governo está rindo à toa: um sujeito com 600 mil reais em títulos federais ganha mais, em termos reais, do que eu, professor universitário com 26 semestres de graduação e 16 de pós-graduação no currículo, e quase 10 anos de experiência docente. Enquanto isso, o sujeito que ganha bolsa-família acha que está levando do governo mais do que está oferecendo. Enquanto isso, o parque Villa-Lobos, em São Paulo, está cheio mesmo durante a semana: em zona nobre da cidade, recebe os ricos que vivem muito bem, cada vez melhor, sem precisar trabalhar.

 

Quando será o nosso levante, o levante do Brasil? O que mais é preciso que (não) ocorra?

 

Mais uma trapalhada da Folha... acabando com a vida do sujeito...

Mais uma da Folha, em destaque no UOL: fizeram reportagem com um preso do regime semiaberto que não quis se identificar, para não sofrer preconceito na universidade que cursa.

 

O que o "jornalista" da Folha de S.Paulo faz? Grava em HD o preso folheando certificados onde constam seu nome e RG de forma claríssima.

 

Fui no Google e não deu outra: é, de fato, nome e RG de um condenado cumprindo pena.

 

Sim, o "jornalista" expôs o cara, sem dó.

 

Depois o sujeito comum se revolta com "jornalistas" e seus métodos. Não é sem razão. Está cheio de caras que frequentam uma faculdade de 4 anos e fazem o seu trabalho como se não houvessem estudado.

 

Mais uma para agradecer quem acabou com a palhaçada ditatorial da reserva de mercado via diploma.

 

Torço para que não tenha havido consequências indesejáveis ao entrevistado.

 

Para completar o post de 27 de julho...

Copiei o trecho abaixo de um artigo de Bob Moon, publicado em Educação & Sociedade. Trata da educação na Índia, o outro exemplo de qualidade no ensino dado pelo "especialista de educação" da Folha.

 

Mesmo em lugares onde há bons progressos rumo a uma taxa de escolarização de 100%, problemas de qualidade começam a surgir. A Índia, por exemplo, alcançou uma taxa de escolarização de mais de 93% no ensino fundamental (entre 6 e 14 anos) em torno de 2005, mas um estudo com mais de 330 mil crianças em 9.500 aldeias mostrou que 35% das crianças de nível I não conseguiam ler um pequeno parágrafo com frases curtas e 40% das crianças no nível V não sabiam ler um texto de nível II (uma simples história). Por outro lado, no ensino fundamental federal, 50% das crianças de nível II a V não conseguiam resolver um problema de subtração envolvendo dezenas e, em nível VI a VIII dessas mesmas escolas, 40% não sabiam resolver um simples problema de divisão (centenas por unidade) (Gandhi Kingdon, 2007).

 

Ou seja, a qualidade do ensino na Índia está caindo, não subindo. Se isso tem a ver com o bônus, não é possível saber. Por certo, só não dá para ficar enganando o leitor do jornal.

 

Voto distrital não é solução

O Grupo Abril está favorecendo e divulgando campanha pelo voto distrital para assembleias e câmaras, pedindo assinaturas de apoio, enfim...

 

O problema é que, como tudo, há pontos positivos e negativos. E a campanha, obviamente, ignora os pontos negativos, que são muitos, e deforma os pontos positivos, fazendo-os parecer maravilha de outro mundo.

 

Hoje, cada estado elege coletivamente seus representantes. O eleitor não pode votar em um candidato de outro estado para a Câmara Federal. A ideia é a de que se reduza ainda mais o espaço, fazendo com que cada parte do estado eleja seu único representante.

 

O movimento diz que isso diminuirá o custo das campanhas. Falso. Basta ver que Roraima, o menor "distrito eleitoral" brasileiro atualmente, tem as campanhas proporcionalmente mais caras do país. A compra de votos fica facilitada: basta escolher o distrito mais carente.

 

O movimento alega que cada distrito eleitoral fiscalizará seu representante, de forma muito mais ativa do que hoje. Falso. O brasileiro não tem engajamento político e, pior, não se motivará a cobrar um político que não foi eleito por seu distrito.

 

O movimento diz que o político, hoje, não sabe quem o elegeu; logo, não sabe se defende o interesse da indústria, ou do comércio, ou do aposentado etc., e que isto ficará óbvio com o voto distrital: o político representa o seu distrito. Argumento ridículo. Qualquer análise de boletins de urna mostra onde estão localizados os votos de cada deputado. Da mesma forma, o deputado sabe quem financiou a sua campanha e sabe se deve ou não se curvar a tais interesses.

 

Passaríamos a ter, na Câmara, com a adoção do voto distrital, 513 deputados políticos profissionais. O sujeito mais articulado, mas não o mais honesto. Palhaços e jogadores de futebol não seriam mais eleitos, mas políticos honestos e menos hábeis na arte da politicagem também não teriam vez.

 

Mesmo pensando em um mundo mais ético do que o brasileiro, o voto distrital causa problemas. Na França, por exemplo, reformas para sanear as contas públicas não conseguem ser aprovadas, pois os deputados não querem desagradar às suas bases distritais, que não possuem esclarecimento suficiente sobre a necessidade de economia de recursos públicos. É óbvio que a conta vem depois.

 

Definitivamente, voto distrital não é solução. Solução é punição rápida e dura aos vícios de campanha, à corrupção e à defesa de interesses escusos. Solução é educar politicamente a nossa população, e não pedir dela adesão a um sistema ao qual não foi devidamente apresentada.

 

Neste sentido, essa campanha pelo distrital é tão suja quanto qualquer campanha política: o que vale é a adesão, não a verdade.

 

Pág. 2/2

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

subscrever feeds