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BoaProva Blog

Blog do Prof.Perdigão. Desde 2007, notícias do BoaProva e comentários sobre educação e outros temas de relevância.

Já tem promotor contra o novo Enem

No Rio Grande do Sul, o Ministério Público Federal quer impedir a UFPel (Universidade Federal de Pelotas) de usar o novo Enem já. Mudanças, para o MPF-RS, só em 2011.

 

A ideia é simples: tudo foi aprovado em cima da hora, pela instância errada, e sem avisar com antecedência aos alunos candidatos e professores de Ensino Médio.

 

Justíssimo. Coerentíssimo. Tudo o que eu venho dizendo há tempos.

 

Resta saber quem ganhará a disputa.

 

A hipocrisia, em forma quase pura: entrevista com a pró-reitora de Graduação da USP

UOL Educação realizou uma entrevista com a professora Selma Garrido Pimenta, pró-reitora de Graduação da USP.

 

Como eu disse aí no título: hipocrisia em forma quase pura.

 

Veja alguns trechos destacados:

 

UOL Educação: Que mudanças na prova a senhora destacaria?


Selma Garrido Pimenta:  A primeira fase [com 90 testes de múltipla escolha] estava muito valorizada no processo como um todo. Ela tinha um peso de 50%. Agora, ela terá peso zero na nota final. Ela [ainda] será uma avaliação geral, sem nenhuma mudança na prova em si; ela terá as 90 questões e o mesmo tempo de duração. Ela será um grande filtro que classifica a partir de um nível de conhecimento bastante geral das disciplinas do ensino médio. Na segunda fase, é que nós temos a mudança significativa. Primeiro: uma redução no número de dias para a realização das provas. Com isso, buscamos diminuir o estresse que o vestibular USP provoca. Passamos a ter três dias de provas - e não mais cinco como era antes. Aqui temos a novidade maior: o candidato, que foi selecionado na primeira fase com uma visão geral dos conteúdos, tem de demonstrar, agora, um nível de conhecimento maior para o conjunto das disciplinas do ensino médio.

 

Peso 50% é muito, vamos baixar. Para quanto? Zero. É aquela história que eu venho repisando aqui: nas carreiras fáceis, o sujeito inteligente e malandro, que fez escola boa, não precisa mais estudar até novembro. Passa para a segunda fase com uma mão nas costas e aprende as técnicas da segunda fase rapidinho em dezembro. Passa fácil, eu garanto. Por quê? Porque a primeira fase vale zero. Zero. Nada. Coisa alguma.

 

Você veja também que aquilo que eu tenho dito é verdadeiro: a Fuvest reduziu o número de dias para economizar. Nenhum aluno fazia cinco provas na segunda fase. O máximo era quatro. Cinco dias é a visão de quem organiza. Não é a visão do aluno. Nota-se claramente que a preocupação da pró-reitora não foi, em nenhum momento, com o aluno. Nem por um só momento a USP pensou nos candidatos.

 

Outro jogo de palavras: "o candidato tem de demonstrar (...)[na segunda fase] um nível de conhecimento maior para o conjunto das disciplinas do ensino médio". É verdade. Só que isso é ínfimo, representando 20% da nota final e um tempo de prova de cerca de 2 horas. O que é extremamente grave é que ele deixa de mostrar que sabe do tema que realmente é importante, ou seja, praticamente acabaram com as específicas. O peso segue sendo de quase 50%, mas será medido com um número de questões bem menor que antes. O grande risco disso é a Fuvest selecionar candidatos que não têm talento para a área que escolheram, aumentando a evasão e o desperdício de dinheiro público.

 

Lá vem o pior:

 

UOL Educação: Sendo a Fuvest tão importante, como é ter nas mãos este vestibular?


Selma Garrido Pimenta: É uma grande responsabilidade. Todo o processo é feito com muito cuidado, muito estudo e muita cautela. Essas mudanças que serão implantadas no próximo vestibular, por exemplo, estão sendo estudadas desde antes de eu chegar aqui [há quatro anos].

 

O processo é feito com tanta cautela que está cheio de gente dentro da USP criticando a mudança repentina, que chega sem nenhum aviso prévio. Acabaram com a preparação dos megacursinhos, que tinham se programado para a Fuvest antiga e não vão conseguir se realinhar; acabaram com a segurança dos candidatos; minaram a lisura do processo. Avisar sobre mudanças com 7 meses de antecedência, se a alteração era estudada há mais de quatro anos, por quê? Por que mantiveram segredo e causaram pânico? O que a Fuvest ganhou com isso nós já sabemos: muito dinheiro. O que perdeu, também fica cada vez mais claro: confiabilidade.

 

E a Fuvest está perdendo espaço para o novo Enem. Isso pode ter um efeito devastador nas carreiras menos concorridas. Vamos ver o efeito disso tudo daqui a alguns anos.

 

Bônus para quem não merece, falta dele para quem merece...

Fantástica matéria de Antônio Gois e Talita Bedinelli, publicada hoje na Folha de S.Paulo (só para assinantes Folha ou UOL), retrata o esforço descomunal de pais das periferias de SP e RJ, que usam até 50% da renda familiar para sustentar os filhos na escola particular (a mais barata, com mensalidades de um oitavo daquelas de elite), para evitar o caos e a instabilidade da escola pública.

 

A reportagem mostra que os alunos têm melhor desempenho que alunos de mesma renda nas escolas públicas. Pode ser pelo fato de suas famílias valorizarem mais a educação. Pode ser a própria estrutura escolar.

 

O que importa é que é comovente ver os esforços desses pais.

 

O que importa é que é frustrante ver que estão dando bônus para alunos da elite socioeconômica que cursaram escolas de elite do governo, enquanto esses alunos, heroicos, precisam se sujeitar à concorrência de igual para igual com os alunos das particulares de elite.

 

É injusto demais!

 

Nova lista de específicas Fuvest: quem perde é a USP

Hoje foi aprovada a lista de provas específicas da Nova Fuvest, ou seja, as disciplinas que serão cobradas no terceiro dia.

 

Sim, é verdade, todas as disciplinas serão cobradas no segundo dia.

 

Mas não dá para entender certas escolhas.

 

Como a de escolherem Geografia como específica para Medicina e Odontologia, reduzindo o peso daquilo que realmente importa: Química e Biologia.

 

(Que pedissem pelo menos História, como a Enfermagem Ribeirão, para que se exigisse que o futuro profissional entendesse um pouco mais da mente humana, do que ela foi e é capaz de fazer. Geografia não tem nexo, porque a USP nunca formou médicos ou dentistas para a Saúde Pública! Nunca.)

 

Ou pedirem Matemática para Relações Públicas, Publicidade e Turismo.

 

E, se há alguma coerência nessa exigência, não pedirem também para o Jornalismo - esse sim, lida com divulgação de números o tempo todo, e tem responsabilidade sobre a educação matemática da população.

 

Direito, agora, também pede Matemática. Embora esta seja conhecimento necessário apenas a algumas áreas muito específicas do Direito. Acho dispensável. Mesmo que seja pela Lógica, as Humanas também têm a sua.

 

Por outro lado, achei positivo cobrarem Matemática na Pedagogia e na Psicologia, áreas que tradicionalmente utilizam muito Estatística. Antes, só a Psicologia SP cobrava.

 

Mas a Enfermagem, que também faz isso... ficou de fora.

 

Perde também a carreira de Ciências Biomoleculares de São Carlos, que dispensou a Matemática e tenta mostrar que é um curso que é mais voltado à área de Biológicas. Mas que não é, e vai sofrer ainda mais por escolher mal os candidatos.

 

Conclusões/Previsões

A área de Biológicas vai sofrer com as escolhas que fez. Estão selecionando os candidatos com as habilidades erradas, com uma prova em que é possível ser malandro. Isso será pior, para a USP, que criar cotas. Vamos ficar aqui, só vendo a taxa de evasão aumentar.

 

Para Humanas, algumas mudanças positivas, muitas outras negativas. No Direito e em algumas carreiras da ECA, a USP vai selecionar o sujeito que entende das exatas e deixar de fora o que manda bem de humanas.

 

Só as Exatas passam incólumes pela mudança - embora o aumento de peso da redação vá distorcer o resultado a favor do candidato que entende de humanas.

 

Essa ideia de escolher os candidatos que têm múltiplas inteligências desenvolvidas é boa, excelente. Mas não é a prova de vestibular que deve fazer isso. É o próprio candidato e sua vocação, seu desejo. Acho que a prova antiga fazia isso com muito mais eficiência do que essa nova seleção fará.

 

Só uma coisa é certa.

 

Para os cursinhos, está ótimo.

 

Para o nosso interesse comercial, também, porque, agora, tem exatas nos três carros-chefe: Engenharia (obviamente, e também porque a área de Exatas foi a única coerente na escolha das provas específicas), Medicina (com a Química - a saída da Física pouco importa, porque a concorrência na primeira fase é feroz demais e exige domínio total das exatas) e Direito (que ganhou a Matemática no segundo e no terceiro dia da segunda fase).

 

Quem perde, mais uma vez, é a USP.

 

Um infeliz exemplo de inconsequência

Mais uma do Dimenstein. Claro.

 

Desta vez, um artigo no qual diz que a ex-secretária da Educação paulista, Maria Helena Guimarães, é, já no título do artigo, "um belo exemplo de coragem".

 

Pois vamos lá!

 

Bônus para os professores, o Dimenstein acha que ela foi corajosa para comprar briga para conseguir. Eu acho que ela se desgastou por pouco. Muitos professores só querem poder trabalhar, algo que está muito difícil em muitas escolas, pois existe uma indisciplina absurda e difícil de coibir por ameaças. Existem muitas aulas vagas e o ruído que vem do pátio, dos alunos desocupados, é ensurdecedor, impossibilitando qualquer atividade didática proveitosa. Dinheiro extra é bom, mas não basta.

 

E, por outro lado, foi liberado bônus para os professores das melhores escolas (o decil superior), independentemente de terem melhorado ou piorado em relação ao ano anterior. Ou seja, o bônus é dado até para quem está ruim (pois as melhores escolas do Estado não são nada boas em comparação com as particulares, ou com o padrão internacional da OCDE) e cada vez pior. É, a intenção do bônus foi boa, mas o Adib Jatene, ex-ministro da Saúde, está aí para mostrar que só boa intenção não funciona. É preciso ser político.

 

A secretária criou um currículo básico, só que esse currículo não é básico. Ele diz tudo o que o professor precisa fazer em sala de aula. Não dá liberdade e não diferencia as escolas centrais das da periferia, e estas das rurais, e assim por diante. Todo mundo vê a mesma coisa. E vê com umas apostilinhas vagabundas, que nitidamente não passaram por revisão, pois estão cheias de erros. Erros de diagramação, como aqueles que apareceram no programa Fantástico e em outros na TV, com os dois Paraguais. Ontem, mesmo, na aula da Licenciatura, os futuros professores, com uma apostilinha dessas na mão, começaram a listar erros óbvios, como a presença de um mapa em inglês, sem qualquer tipo de tradução. Mas existem os mais graves: erros conceituais, por exemplo...

 

O pior de tudo: ouvi dizer que professores sem formação adequada estão fazendo as tais apostilas e a Secretaria de Educação está colocando o nome de professores da USP como autores, quando, na verdade, estes professores apenas deram diretrizes gerais do processo e elaboraram os parâmetros curriculares paulistas. Está aí algo que eu reconheço, Dimenstein, como coragem. Porque, se é verdade o que eu ouvi falar, isso é fraude. E eu acho que é preciso ser corajoso para ser mentiroso.

 

A secretária implantou um sistema de índices de avaliação tão bom que é, mais ou menos, como colocar 10 médicos de ponta para diagnosticar uma doença. E deixar um estagiário para tratar. Vale lembrar que, na tal provinha de seleção de docentes temporários implantada pela secretária, louvada pelo Dimenstein e devidamente ironizada aqui, muitos dos candidatos a professor tiraram zero, e nada foi feito para requalificá-los. A única coisa que a secretária quis foi eliminá-los do processo. Só que, se a secretaria fizer isso, vão ficar ainda mais "aulas vagas", mais alunos no pátio, menos condição de dar aula...

 

Para o Dimenstein, "no futuro, ela será lembrada como uma das pessoas que fizeram avançar a educação no Brasil; sempre esteve aberta às mais diferentes experiências inovadoras." É bom lembrar que tentar reinventar a roda é improdutivo e excêntrico. Nunca soube de nenhum professor lembrado de forma positiva por ser excêntrico. Apenas artistas talentosos merecem esse tratamento. Não é o caso. Improdutividade, então, é coisa de gente da nobreza. Também não é o caso.

 

E agora, por fim, botar o Paulo Renato, que virou político mas não é político - precisa aprender muito com o Haddad, esse, sim, bem mais político e mais entendido de educação, tanto que está desde 2004 na pasta do MEC - no lugar da Maria Helena na secretaria... para mim, se é jogada política, é de perna de pau. Por mais que queira e aja para revolucionar (mas nem o Dimenstein acredita nisso - acha que o Paulo Renato vai dar continuidade às baboseiras da ex-secretária), não é em um ano e meio, ou seja, até a próxima eleição presidencial, que a situação da educação paulista vai mudar.

 

Educação se muda em lustros, não em meses. E bons profissionais são lembrados por progressos, não por tentativas.

 

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